Parte da fama de Black Beauty vem de sua origem. É um pedaço de Marte que caiu na Terra, provavelmente após um grande impacto no Planeta Vermelho. É composto de material de cerca de 4,48 bilhões de anos atrás, o que o torna um dos materiais marcianos mais antigos conhecidos no sistema solar. Sem mencionar sua beleza impressionante – daí o seu nome. Infelizmente, estudos anteriores exigiram que os cientistas cortassem partes dessa obra-prima para estudá-la. Essas partes eram então trituradas ou dissolvidas para revelar os materiais que compõem a rocha. Mas agora podemos fazer melhor do que isso, com o advento das máquinas de tomografia computadorizada (TC).
Existem dois tipos de tomógrafos computadorizados. Um deles, comumente usado em consultórios médicos no mundo todo, é a tomografia computadorizada por raios X. Esses tomógrafos são excepcionalmente eficazes na detecção de materiais densos e pesados, como ferro ou titânio. Outro método, menos comum, é a tomografia computadorizada por nêutrons, que utiliza nêutrons em vez de raios X para atravessar o objeto de estudo. Os resultados desse exame variam bastante, mas geralmente ele é mais eficiente na penetração de materiais densos e, principalmente, na detecção de hidrogênio — um dos principais componentes da água.
No artigo, os pesquisadores usam ambas as técnicas para testar o meteorito Black Beauty de forma não destrutiva e descobrir o que ele continha. Embora não destrutivos, eles reconheceram ter usado apenas uma pequena amostra do meteorito, que havia sido previamente polida. Mas, ao analisarem o material da pequena amostra, encontraram "clastos". Em termos geológicos, um clasto é simplesmente um pequeno fragmento de rocha preso dentro de uma rocha maior. Encontrar clastos não é surpreendente — os cientistas sabem há décadas que o meteorito Black Beauty era composto deles, o que faz sentido, visto que sabíamos que a origem do meteorito foi um impacto marciano que fundiu rochas. Mas os tipos específicos de clastos encontrados pelas tomografias computadorizadas eram novos.
Conhecidos como clastos de "oxihidróxido de ferro rico em hidrogênio", ou H-Fe-ox, esses aglomerados ricos em hidrogênio representavam aproximadamente 0,4% do volume da amostra de Black Beauty analisada, que tinha o tamanho aproximado de uma unha. Embora possa parecer uma quantidade pequena, a composição química interna do meteorito indica que esses pequenos fragmentos de rocha retêm cerca de 11% do conteúdo total de água da amostra.
A própria Black Beauty possui uma concentração estimada de 6.000 partes por milhão (ppm) de água, um valor extremamente alto considerando que se trata de um planeta com tão pouca água atualmente. Mas, o mais importante, essas descobertas complementam a descoberta de amostras aquosas na cratera Jezero, feita pelo rover Perseverance. Apesar de a Black Beauty ter vindo de uma região completamente diferente de Marte em comparação com as amostras do rover, a ligação entre as amostras comprova que havia água abundante, provavelmente líquida, na superfície de Marte bilhões de anos atrás.
Este belo meteorito é, em si, basicamente uma missão de retorno de amostras em uma única rocha. No entanto, os cientistas que o analisaram esperavam usar as mesmas técnicas não destrutivas de tomografia computadorizada em futuras amostras da missão de retorno de amostras de Marte. As tomografias computadorizadas conseguem enxergar através da estrutura de titânio que continha as amostras. Mas, dado o recente cancelamento desse programa, pode demorar muito até que amostras planetárias sejam submetidas diretamente às poderosas ferramentas que temos aqui na Terra. Ainda está prevista uma missão chinesa de retorno de amostras, então talvez não demore tanto quanto o esperado. Até lá, realizar o mesmo tipo de teste não destrutivo em outros meteoritos marcianos parece um bom uso da experiência e dos equipamentos disponíveis. Esperamos ver muitos outros estudos de outras amostras no futuro.

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